As obscuridades sobre a venda da Confiança até agora não resultaram no aporte de dinheiro daqueles que já assumiram o controle. O que se vê é a queima dos imóveis do GBOEX na fornalha da insolvência da seguradora. Coisa de alquimista.
Em
maio/2014, escrevia (Obscuridades na
Confiança)
que algo muito sério se passava no GBOEX cujo
patrimônio estava sendo dilapidado com a insolvência da CONFIANÇA. E
arrematava: “Aguardarei os esclarecimentos do coronel Renk, mas, como não
confio na alardeada transparência, vou tratar de me informar sobre esta obscura
operação, para informar àqueles que ainda se interessam em proteger o
patrimônio formado para garantir o pagamento dos pecúlios, mas que está sendo
dilapidado, de forma inconsequente e irresponsável”.
Passados quatro meses, constata-se nos balanços patrimoniais de
junho/2014 que GBOEX e Confiança estão com uma insuficiência de capital
(PLA-CMR) de R$ 23 milhões e R$ 112 milhões, respectivamente, passíveis,
portanto, de liquidação extrajudicial, nos termos da legislação em vigor (A
insolvência da Confiança, 12/12/2013). R$ 135 milhões serão necessários para
torná-las solventes, mas de onde tirar estes recursos? Quem seria o
alquimista, capaz de transformar esta insolvência gerada por uns trinta anos de
“má gerência administrativa”, conforme já constatou o MPF, em uma empresa capaz
de honrar os pecúlios contratados nos anos 60?
Diante do silêncio do GBOEX, que não responde aos pedidos de informação
de seus associados, vou tentar esclarecer o que está acontecendo, com base nas
informações disponíveis.
A Confiança iniciou o ano de 2014, insolvente e sob a égide de um TAC
(Termo de Ajustamento de Conduta) firmado com a SUSEP que tem como foco a venda
dos imóveis transferidos do GBOEX para garantir o pagamento de dívidas
bancárias e com um prejuízo acumulado da ordem de R$ 86 milhões, impactando o
resultado do GBOEX que só não se tornou insolvente devido a um aporte não
operacional de quase R$ 50 milhões, proveniente de uma demanda judicial.
Pressionados por todos os lados e sem a vivência empresarial para
enfrentar tão grave situação (repita-se, criada pelos próprios dirigentes) a
direção do GBOEX concordou em encaminhar a venda da seguradora, através de
profissionais do mercado segurador que acenaram com a formação de um grupo
comprador suportado pelo Banco Máxima.
A operação consistiu em firmar um “acordo de gaveta” para a venda das
ações da seguradora com a promessa de que os compradores “fariam aportes de
valores expressivos para sanear a seguradora”, isso consta em uma carta a mim
endereçada e
que foi, antes de qualquer divulgação, encaminhada ao presidente do GBOEX com
um pedido de confirmação dos fatos ali narrados (Esclarecimentos
necessários e urgentes, 30/5/2014).
Assim, na AGO de 31/3/2014, a “Companhia, por decisão do acionista majoritário,
alterou a composição diretiva e se prepara para uma mudança expressiva em sua
trajetória. A primeira ação da diretoria empossada foi criar uma nova cultura
dentro da própria Cia, e isto incluiu realinhamento da força de trabalho,
reduzindo assim todo e qualquer excesso” (BP Confiança, jun/2014). “Se tudo
ocorresse bem no acordo realizado, no segundo semestre deste ano, após o
saneamento da seguradora pelos compradores, o GBOEX oficializaria perante os
órgãos competentes a venda das ações para os compradores, ocorrida de fato na
eleição da diretoria quando da realização da AGO de março de 2014”, complementou
a minha fonte.
“Ocorre que após alguns dias
da eleição”, continua meu informante, “o diretor eleito pelo Banco Máxima,
diante do resultado das apurações realizadas nos registros contábeis da
seguradora comunicou verbalmente aos interessados que recusava a nomeação e que
o Banco Máxima estava se retirando do negócio não possuindo interesse nas ações
da seguradora”.
Diante da desistência do investidor,
o recém eleito diretor presidente Marcelo Cabelleira, “procurou a direção do
GBOEX e se comprometeu de buscar novos investidores para comprar as ações da
seguradora precisando, no entanto, permanecer no negócio e na direção da
seguradora”.
Refeita a ata da AGO, com a
retirada do representante do banco, foi feito um aporte de “R$ 3 milhões de reais em
moeda corrente nacional”, conforme consta no BP Confiança, jun/2014 (via GBOEX,
vide Convocação urgente de
AGE,
19/9/2014) e se iniciou “um profundo processo de due-diligence,
utilizando consultores renomados, auditorias técnicas atuariais externas, e uma
nova política na condução dos processos de auditorias independentes, decidimos
desacelerar, e colocar foco na liquidação total de todo e quaisquer passivos,
sejam eles, com segurados, prestadores de serviços, instituições financeiras e
passivos fiscais”.
Segundo o
release veiculado no blog de Políbio Braga (26/5/2014), a “empresa poderá ser
vendida a qualquer momento” e a “direção foi profissionalizada há dois meses e
notícias no mercado dão conta de que novo controlador aportaria R$ 100 milhões
para colocar em dia as contas da seguradora”.
Além disso, houve um reforço
de caixa da ordem de R$ 75 milhões, “advindos do resultado da mais valia adquirida na
alienação de parte dos ativos imobiliários”, “fruto do “processo de
desimobilização” imposto pelo Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado, em
dezembro/2013, entre a Confiança e a SUSEP”, informa o citado balanço
patrimonial. Saliente-se que estes R$ 75 milhões originam-se de parte dos R$ 20
milhões, em imóveis, transferidos em 2008 e que foram reavaliados e incluídos
no Ativo da Confiança como R$ 44 milhões (As minhas preocupações,13/10/2009). Coisa de
alquimista!
Outro aporte deveria ter sido feito, da
ordem de R$ 50 milhões, do qual faz parte, acredito, os R$ 3 milhões, já
referidos. Pode ser que o tal aporte
tenha sido protelado e que seja o anunciado no balanço patrimonial: “para o próximo semestre
a Cia receberá do acionista majoritário um novo reforço de capital na ordem de
R$ 51 milhões de reais”, ou seja, “Até o final do próximo semestre a Cia terá
recebido um reforço de caixa na ordem de R$ 126 milhões de reais, suficientes
para sanear todo e qualquer débito existente, e capital suficiente para que
seguir o seu plano de recuperação e de crescimento”.
Temo que
este anunciado aporte de R$ 51 milhões termine sendo feito pelo GBOEX com o
fruto do leilão (Medidas urgentes em
defesa do patrimônio,
9/9/2014) de 58 imóveis do GBOEX, anunciado no seu BP de junho/2014, “para
sanar a insuficiência de Patrimônio Líquido Ajustado”.
E arremata
o relatório do BP Confiança, jun/2014: “Temos convicção que vamos entregar nos
próximos meses ao mercado, uma Cia totalmente reformulada, com uma nova
estrutura física, um novo portfólio (muito mais robusto), uma nova estrutura de
capital (muito mais sólida), um novo design, e uma nova filosofia de trabalho”.
Mas e o
investidor? Até agora, com “moeda corrente nacional”, nada! O que está
sustentando são os imóveis do GBOEX, aqueles adquiridos antes deste grupo de
oficiais do Exército assumir o comando absoluto, no início dos anos 80.
Consta que Marcelo Cabelleira teria assinado, em
16/7/2014, um contrato irrevogável e irretratável, que previa o aporte de R$ 50
milhões, em sessenta dias e que, nesta ocasião, o GBOEX teria aportado mais R$
4 milhões (o que aparece na conta Aumento/Redução de
capital (Em Aprovação), ago/2014). Vencido o prazo, nada de dinheiro e “tudo como dantes no quartel de Abrantes”: Marcelo
Cabelleira presidente, buscando um investidor e o GBOEX tratando de aportar
recursos provenientes da venda dos imóveis.
Curiosamente,
um informante de Minas Gerais telefonou, em junho/2014, sobre uma negociação
que envolvia a compra, pelo GBOEX, de parte de um hotel inacabado de Belo
Horizonte com o compromisso dos vendedores investirem o dinheiro na Confiança.
Depois, em
22/7/2014, recebo um e-mail da mesma pessoa: “o negócio
entre o GBOEX e o atual presidente da Confiança foi fechado. Saiu da conta dos
associados do GBOEX o dinheiro pra "tampar o rombo". Conforme te
falei o GBOEX comprou parte de um hotel inacabado de Belo Horizonte e os
vendedores irão investir o dinheiro na Confiança. Então: o GBOEX colocou o
dinheiro na seguradora dando uma volta. Já tem declarações do presidente da
Confiança falando em aporte financeiro”. Detalhe: esta informação bate com
aquela sobre a assinatura de um contrato em 16/7.
Informação mais recente detalha a operação no valor total de R$ 95
milhões: imóveis da Confiança (?), parte em “moeda corrente nacional”, os mineiros
assumiriam as dívidas bancárias e a transação envolveria um fundo imobiliário.
Outra informação: edital publicado no Jornal do Comércio, de 22/9,
dava conta da convocação de nova Assembleia Geral para a eleição de novo
diretor, face a alteração da Diretoria da Companhia, marcada para o próximo
dias 30/9/2014 que foi, depois, suspensa. Segundo
consta, nesta AGO seria sacramentada a entrada do novo investidor, dos
“mineiros”, com a eleição de diretores por eles indicados, mas foi suspensa na
última hora. Apuro-me a registrar que nada tenho contra os “mineiros”, muito
pelo contrário, desde que resolvam o problema de insolvência sem a utilização
dos imóveis do GBOEX.
Disso tudo fica a certeza de que
existe uma situação assaz obscura que só vem a agravar as dificuldades do GBOEX
cujos associados veem ser dilapidado o patrimônio que foi construído para
garantir o pagamento dos pecúlios, mas que vem sendo irresponsável e
inconsequentemente jogado na fogueira da insolvência de uma seguradora que
vinha sendo dirigida por gente sem a mínima experiência, conforme deixa
entender os termos do relatório do balanço patrimonial da seguradora, já
referido.
E esta falta de informação gera
intranquilidade em todos os setores do mercado e poderia ser evitada, tivesse o
presidente do GBOEX, controlador da Confiança, divulgado notas de esclarecimento
sobre o andar das negociações. Este blog sempre foi colocado à disposição para
esclarecimentos e para o exercício do direito ao contraditório e à ampla
defesa.
Para encerrar, mais um alerta
aos conselheiros e envolvidos na transação da seguradora: ao longo destes
últimos quatro anos foram registrados nos autos do ICP MPF n. 20/2010-97 e
neste blog alertas e acusações, todas não contestadas e a maioria comprovada em
pareceres técnicos, que não deixam dúvidas sobre a responsabilidade dos membros
do CD/GBOEX quanto a operações que beiram o desfalque patrimonial e que podem
ser consideradas como fraude ao credor que são os mais de cem mil associados
que passaram mais de meio século pagando para levar um calote. Vários alertas
foram, também, feitos à SUSEP sobre a sua responsabilidade neste calote, o que
poderá gerar danos ao Erário, conforme alerta feito no Relatório da CPI da
Previdência Privada (Câmara dos Deputados, 1996) quando se reportou ao caso
Bacen/Coroa-Brastel (Salários
indevidos, 25/9/2014).
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